Lente McMaster da Terapia Ocupacional

Recentemente, decidi organizar minha estante e comecei a rever meus cadernos da época da faculdade. Entre as anotações de “Fundamentos de Terapia Ocupacional II” (caderno do terceiro ano), me deparei com a representação de um modelo muito interessante: a Lente McMaster de Terapia Ocupacional. Uma vez que procurei na internet e não encontrei nada a respeito, achei que seria interessante disponibilizá-lo aqui.

A Lente McMaster representa a ótica através da qual o Terapeuta Ocupacional enxerga cada paciente. Representada por 8 lentes, ela indica a ordem de prioridades a serem consideradas pelo profissional ao realizar suas avaliações e reavaliações.

Vamos a ela?

1. OCUPAÇÃO

É a primeira lente pela qual o Terapeuta Ocupacional vê o paciente, e o tema central da atuação. Ela considera todas as ações realizadas por ele, ou seja, as atividades de auto-cuidado, cuidado com o ambiente, lazer e produtividade, identificando as limitações apresentadas pelo paciente e suas respectivas causas.

2. ESPIRITUALIDADE

Considera o meio, os valores e os propósitos do paciente. É o significado e a essência da vida de cada um, e busca dar sentido a si próprio e à própria experiência humana. Os Terapeutas Ocupacionais devem oportunizar aos pacientes temas existenciais: sofrimento, culpa, perdão, alegria, liberdade, solidão, entre outros, e identificar quais as necessidades deste paciente, para que também sejam abordadas em tratamento.

3. DESENVOLVIMENTO

Referente à etapa de desenvolvimento que a pessoa se encontra, é de suma importância no processo de terapia, uma vez que cada etapa compreende habilidades diferentes, bem como limitações.

4. P.A.O. (Pessoa, Ambiente, Ocupação)

São três sistemas que, juntos e inter-relacionados, resultam no desempenho ocupacional do paciente. Cada sistema compreende diversos sub-sistemas:

– Pessoa: sentimentos, habilidades físicas/cognitivas

– Ambiente: localização, valores, cultura

– Ocupação: ações, auto-cuidado, lazer, produtividade

5. ENFOQUE TEÓRICO

É a escolha pelo TO de um quadro de referência para o tratamento, podendo ser escolhido mais de um, de acordo com as necessidades.

6. AVALIAÇÃO

A avaliação inicial é essencial. Identificando-se as queixas do próprio paciente, os componentes de desempenho que estão defasados e o prognóstico de acordo com a patologia, o terapeuta tem uma base para iniciar o tratamento e comparar a evolução no momento da reavaliação.

7. TRATAMENTO

O TO desenvolve e complementa um plano de ação que inclui intervenção estratégica e técnicas de tratamento específicas, conduzindo o paciente para atingir os resultados desejados.

8. RESULTADO

Durante a continuidade do tratamento, o monitoramento do progresso é baseado em notas e na avaliação da evolução do desempenho ocupacional.

 

Todo Terapeuta Ocupacional deve sempre utilizar a Lente McMaster para olhar seu paciente durante as avaliações e o próprio tratamento, mensurando os resultados de sua intervenção. Espero que tenham gostado!

Obrigada pela visita, e até a próxima!

 

Avaliando Componentes Cognitivos

Por que a cognição é tão importante num processo de reabilitação?

Quando mensuramos o grau de desempenho do nosso paciente, percebemos que as questões cognitivas influenciam diretamente em sua capacidade de cuidar de si mesmo. Antes de darmos continuidade, vale lembrar que o nosso sistema cognitivo é composto por diversas habilidades, tais como atenção, memória, função executiva, imagem corporal, orientação de tempo e espaço, linguagem, função visuomotora, função visuoespacial, entre outras. Qualquer alteração em um desses componentes pode interferir no bom desempenho de atividades. Por exemplo: um paciente que apresente déficit de consciência corporal consequentemente vai apresentar dificuldades no vestuário, que é uma atividade de auto cuidado. Portanto, é da função do Terapeuta Ocupacional identificar tais déficits e tratá-los.

Cada função do nosso corpo é comandada por uma parte específica do cérebro. Quando alguém sofre uma lesão, é importante sabermos o que cabe a cada hemisfério cerebral comandar, e investigar onde o paciente sofreu a lesão, para sabermos o que esperar.

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Hemisfério esquerdo: responsável pela linguagem escrita, linguagem falada, ciências numéricas e controle do hemicorpo direito.

Hemisfério direito: responsável pela visão tridimensional, capacidades musicais, capacidades artísticas e controle do hemicorpo esquerdo.

Para realizar a avaliação, existem diversas possibilidades. Vou abordar algumas delas que nos podem ser muito úteis para identificar componentes cognitivos afetados:

TESTE DO X

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Este teste evidencia uma possível heminegligência, ou seja, um déficit na consciência e imagem corporal. O teste contém vários traços que o paciente deve transformar em X. A heminegligência estará presente se o paciente riscar apenas os traços de um dos lados do papel.

TESTE DE IDENTIFICAÇÃO DE PARTES DO CORPO

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É bastante utilizado para testar as noções de lateralidade e imagem corporal. O terapeuta  posiciona-se à frente do paciente e solicita que ele identifique algumas partes do seu corpo, exemplo: “Aponte meu olho esquerdo, aponte minha perna direita, aponte com sua mão direita o meu olho direito, aponte com sua mão direita o meu ombro esquerdo”, e assim por diante.

MINI EXAME DO ESTADO MENTAL

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O Mini Mental é amplamente utilizado para rastrear alterações cognitivas, e tem uma grande vantagem, que é a pontuação. Cada questão tem um valor de pontos, o que significa que resulta num escore que pode ser utilizado posteriormente como reavaliação e mensuração da recuperação.

Existem várias outras maneiras não padronizadas, mas também muito interessantes para o uso na avaliação, como por exemplo, utilizar álbuns de fotos do próprio paciente e mostrar fotos recentes e antigas para que ele recorde nomes de pessoas e lugares associados; esconder um objeto do paciente no início da avaliação e pedir que ele recorde onde o objeto foi escondido no final; lembrar de um pequeno texto (como uma frase) imediatamente após ser escutado e novamente 15 minutos depois; etc.

Podemos também criar testes funcionais determinando tarefas simples para o paciente, como anotar recados na agenda (exemplo: “o senhor tem uma consulta na clínica na segunda-feira, às 9 horas”), observando se o paciente consegue localizar as datas corretas na agenda, se consegue lembrar-se do recado sem pedir para repeti-lo, se o anota de forma completa.

Tais testes nos permitem observar se o paciente apresenta algum déficit na atenção, na memória, na execução, na função visuomotora, entre vários outros componentes, nos permitindo traçar um plano de tratamento adequado para melhorar significativamente seu desempenho cotidiano.

Obrigada pela visita, e até a próxima!

Sensibilidade: Avaliação e Recuperação

O que acham de falarmos um pouquinho sobre sensibilidade? Nem sempre ela é considerada ou até mesmo percebida como deveria num processo de reabilitação, o que é um erro: a função motora está intimamente relacionada com a função sensorial. A sensibilidade auxilia na execução dos movimentos, no controle da força e pressão aplicada ao objeto manipulado e no reconhecimento de objetos sem utilizar a visão. Um exemplo muito simples é deixarmos um dos nossos dedos com um band-aid durante um dia inteiro, depois retirá-lo e manipular objetos diversos. A falta de sensibilidade incomoda e inibe a volição para a utilização daquela estrutura. Assim, a recuperação motora depende também do retorno sensorial.

Além de nos auxiliar na motricidade, a sensibilidade também é uma importante forma de proteção para o organismo: ela nos fornece o reflexo necessário para evitar traumas e lesões. Assim, possuímos diversos tipos de sensibilidade, como térmica, dolorosa, tátil superficial e profunda. Nem todas são controladas pelas mesmas regiões do cérebro, por isso é importante que a avaliação seja abrangente, identificando se a sensibilidade realmente está inalterada ou se está prejudicada.

AVALIAÇÃO

Para avaliar, devemos prezar por um ambiente sem estímulos sonoros. Como precisamos de respostas por parte do paciente, este não pode apresentar déficit cognitivo. Sua visão deve ser obstruída. Podemos utilizar uma venda, pedir que ele feche os olhos ou utilizar uma chapa de papelão com abertura para a mão. A mão a ser avaliada deve estar posicionada sobre uma toalha ou massa de modelar.

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É esclarecido para o paciente como o teste será realizado, ou seja, sempre que sentir um toque, ele deve avisar. A avaliação é iniciada primeiramente na área sensível, ou seja, o lado saudável. Depois, passa-se para o lado afetado.

Para a avaliação da sensibilidade superficial, podemos utilizar o Estesiômetro, que é o teste dos monofilamentos calibrados. Começa-se com o monofilamento mais fino, tocando os pontos de forma que o filamento fique levemente curvado.

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Devemos começar a tocar primeiramente os pontos proximais, depois os distais. É importante não estabelecermos um intervalo padronizado entre cada estímulo, para que o paciente não fique predisposto a confirmar que sentiu, mesmo sem ter sentido. Caso ele não reconheça algum dos pontos, retornar a ele antes de finalizar a avaliação, para se certificar de que realmente a sensibilidade está prejudicada.

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Na falta de um estesiômetro, podemos utilizar materiais alternativos, como agulha sem ponta, cotonete, ponta do dedo, traseira da caneta, entre outras coisas. Podemos aproveitar para pedir que o paciente compare os estímulos (este é mais fino, este é mais grosso, este é maior, este é menor etc.). Também é importante testar texturas diferentes, como esponjas, lixas, algodão, entre outras coisas, solicitando que o paciente descreva qual a sensação. Depois, teste dois estímulos diferentes em dois pontos ao mesmo tempo e peça ao paciente que descreva o que e onde está sentindo.

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Repita o procedimento dos dois pontos, sendo cada ponto em uma mão, com dois estímulos diferentes.

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Para avaliar a sensibilidade térmica, podemos utilizar tubos de ensaio contendo água quente e água fria, ou duas toalhinhas, uma aquecida e a outra resfriada. O paciente deve relatar se está sentindo quente ou frio. Para a sensibilidade dolorosa, o estímulo é feito através de pequenos beliscões. Para a sensibilidade profunda, podemos utilizar pesos diversos e pedir que o paciente compare-os entre si (este é mais leve, este é mais pesado). Para avaliar estereognosia, oferecemos ao paciente – que sempre deve ficar de olhos fechados -, diferentes objetos para que sejam reconhecidos através do tato (moeda, caneta, algodão, chave etc.). Para avaliar grafestesia, traçamos na pele do paciente algumas letras, que devem ser reconhecidas por ele.

RECUPERAÇÃO

Primeiramente, devemos dar preferência a sessões breves ao invés de longas, e motivar o paciente, levando em consideração o que ele se mostrou capaz de fazer durante a avaliação. Devemos utilizar tanto o lado saudável quanto o lado afetado, e a recuperação é baseada em atividades que envolvam a sensibilidade.

Durante as atividades, deve ser oferecido ao paciente, que estará com a visão obstruída, um objeto para que este reconheça através do toque com a mão afetada. Se o objeto não for reconhecido, a visão é desobstruída para que a sensibilidade seja associada com a visão, comparando com a sensibilidade e a visão utilizando o lado saudável.

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Novamente, com a visão obstruída, dois objetos são oferecidos ao paciente, sendo um deles o que já foi utilizado anteriormente, tendo como meta o reconhecimento deste por parte do paciente.

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Após obter sucesso com esta atividade, podem ser oferecidas diferentes texturas para serem descritas através do toque. Letras de madeira ou EVA podem ser oferecidas para que o paciente sinta e descubra a palavra que está escrita.

Devemos, também, utilizar toques direcionados, ou seja, estímulos que deslizam pelo membro superior, questionando ao paciente onde o estímulo está começando e onde está terminando, que direção está seguindo, que forma está fazendo etc. Pode-se começar com toques mais profundos e, posteriormente, ir suavizando. Sempre que o paciente errar, a visão deve ser desobstruída e o estímulo repetido, para que a visão seja integrada com a sensibilidade.

Oferecer ao paciente objetos maiores, que devem ser segurados com ambas as mãos, como agendas, bolas, caixas etc., pode ser válido também, questionando ao paciente o que ele está segurando, qual a distância entre as mãos, se o objeto é grande ou pequeno.

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Outras atividades interessantes são a exploração de potes com grãos diferentes contendo objetos para serem encontrados, utilização da caixa tátil com diversos pares de objetos para serem encontrados, cada um com uma mão, entre outras.

Para identificar a melhora do nosso paciente, devemos sempre reavaliá-lo, mas é possível medir os resultados durante o tratamento, observando aumento do número de respostas corretas, diminuição do tempo para completar as atividades e melhora da funcionalidade, que é o nosso foco, como terapeutas ocupacionais!

Obrigada pela visita, e até a próxima!