Quando um Paciente Morre

Como Terapeutas Ocupacionais, e qualquer outro profissional da área da saúde, aprendemos durante a nossa formação que o vínculo criado com o paciente deve ser um vínculo estritamente profissional. Um vínculo TERAPÊUTICO.

No entanto, alguns pacientes permanecem em tratamento durante anos. Entra atividade, sai atividade, e cada vez mais vamos conhecendo as histórias de vida, as dificuldades, as conquistas, as relações, os sentimentos.

Mas sempre chega a hora de dizer adeus.

Quando a despedida ocorre por melhora clínica e o paciente recebe alta, é uma despedida feliz. Uma missão cumprida.

Mas e quando a despedida ocorre porque o nosso paciente foi a óbito?

Acabo de passar por uma perda recentemente, e quando fui procurar por textos sobre o assunto, me surpreendi: não encontrei NADA. Então decidi escrever esta postagem, direcionada a todos que já passaram por isso. E, claro, também aos que não passaram, pois passarão.

Eu trabalho com atendimento domiciliar. O que significa que os pacientes me abrem as portas da sua casa, me permitem uma convivência frequente com seus familiares e seu ambiente. Fazemos parte da rotina um do outro. Cada paciente é de um jeito, cada família é de um jeito, cada casa funciona de uma maneira. E, com o passar do tempo, vamos criando um laço inevitável: a afeição. Passar a visita ao paciente torna-se muito além de um trabalho – torna-se um prazer. E, de repente, a Vida nos tira esse prazer. Para nós, é uma perda tão importante quanto para as outras pessoas.

Segue texto que escrevi em homenagem à Sra. Itália, uma paciente muito querida que se foi neste dia 07/02/2015.

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“A Blusa Inacabada

Nós tricotamos juntas durante muitas tardes.
Suas mãos já experientes, com muitas histórias para tecer nas linhas. As minhas mais lentas, mais verdes, mãos de quem tem muito o que aprender.
Algumas tardes, tricotamos saudades. Uma pátria que ficou para trás. Um marido que se foi cedo demais. O grupo da terceira idade que costumava frequentar.
Tivemos tardes para tricotar azedumes. Remédios que davam reações. Dentadura desconfortável. Dor lombar.
Tricotamos amor. Um casamento feliz. Filhos, netos, bisnetos.
Na nossa blusa tricotada, tecemos momentos compartilhados de alegria. Cafés no fim da tarde. Bolo. Pão. Limonada feita com os limões do quintal. Risadas…
Um ponto, dois pontos, três pontos. Uma receita de macarrão. Laçada. O macarrão que eu tento moldar sai grosso demais. Uma carreira terminando com dois pontos juntos. Agora é só cozinhar e comer.
Finalizo as costas da blusa, inicio a frente.
– Quantos pontos, D. Itália?
– Setenta. Melhor setenta.
Estou quase na metade.
Mas temos um problema: a Senhora se foi, e eu fiquei. Fiquei aqui, com a blusa inacabada, carregada de histórias em cada ponto, lembranças em cada laçada, vivências em cada carreira.
A blusa inacabada está na sacola. E, como todos que ficaram, terei que continuar por conta própria agora.
Foi uma honra tricotar com a Senhora, D. Itália!”

E vocês, T.O.s? Que tal compartilharem suas experiências de luto?

Obrigada pela visita, e até a próxima!

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