Sensibilidade: Avaliação e Recuperação

O que acham de falarmos um pouquinho sobre sensibilidade? Nem sempre ela é considerada ou até mesmo percebida como deveria num processo de reabilitação, o que é um erro: a função motora está intimamente relacionada com a função sensorial. A sensibilidade auxilia na execução dos movimentos, no controle da força e pressão aplicada ao objeto manipulado e no reconhecimento de objetos sem utilizar a visão. Um exemplo muito simples é deixarmos um dos nossos dedos com um band-aid durante um dia inteiro, depois retirá-lo e manipular objetos diversos. A falta de sensibilidade incomoda e inibe a volição para a utilização daquela estrutura. Assim, a recuperação motora depende também do retorno sensorial.

Além de nos auxiliar na motricidade, a sensibilidade também é uma importante forma de proteção para o organismo: ela nos fornece o reflexo necessário para evitar traumas e lesões. Assim, possuímos diversos tipos de sensibilidade, como térmica, dolorosa, tátil superficial e profunda. Nem todas são controladas pelas mesmas regiões do cérebro, por isso é importante que a avaliação seja abrangente, identificando se a sensibilidade realmente está inalterada ou se está prejudicada.

AVALIAÇÃO

Para avaliar, devemos prezar por um ambiente sem estímulos sonoros. Como precisamos de respostas por parte do paciente, este não pode apresentar déficit cognitivo. Sua visão deve ser obstruída. Podemos utilizar uma venda, pedir que ele feche os olhos ou utilizar uma chapa de papelão com abertura para a mão. A mão a ser avaliada deve estar posicionada sobre uma toalha ou massa de modelar.

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É esclarecido para o paciente como o teste será realizado, ou seja, sempre que sentir um toque, ele deve avisar. A avaliação é iniciada primeiramente na área sensível, ou seja, o lado saudável. Depois, passa-se para o lado afetado.

Para a avaliação da sensibilidade superficial, podemos utilizar o Estesiômetro, que é o teste dos monofilamentos calibrados. Começa-se com o monofilamento mais fino, tocando os pontos de forma que o filamento fique levemente curvado.

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Devemos começar a tocar primeiramente os pontos proximais, depois os distais. É importante não estabelecermos um intervalo padronizado entre cada estímulo, para que o paciente não fique predisposto a confirmar que sentiu, mesmo sem ter sentido. Caso ele não reconheça algum dos pontos, retornar a ele antes de finalizar a avaliação, para se certificar de que realmente a sensibilidade está prejudicada.

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Na falta de um estesiômetro, podemos utilizar materiais alternativos, como agulha sem ponta, cotonete, ponta do dedo, traseira da caneta, entre outras coisas. Podemos aproveitar para pedir que o paciente compare os estímulos (este é mais fino, este é mais grosso, este é maior, este é menor etc.). Também é importante testar texturas diferentes, como esponjas, lixas, algodão, entre outras coisas, solicitando que o paciente descreva qual a sensação. Depois, teste dois estímulos diferentes em dois pontos ao mesmo tempo e peça ao paciente que descreva o que e onde está sentindo.

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Repita o procedimento dos dois pontos, sendo cada ponto em uma mão, com dois estímulos diferentes.

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Para avaliar a sensibilidade térmica, podemos utilizar tubos de ensaio contendo água quente e água fria, ou duas toalhinhas, uma aquecida e a outra resfriada. O paciente deve relatar se está sentindo quente ou frio. Para a sensibilidade dolorosa, o estímulo é feito através de pequenos beliscões. Para a sensibilidade profunda, podemos utilizar pesos diversos e pedir que o paciente compare-os entre si (este é mais leve, este é mais pesado). Para avaliar estereognosia, oferecemos ao paciente – que sempre deve ficar de olhos fechados -, diferentes objetos para que sejam reconhecidos através do tato (moeda, caneta, algodão, chave etc.). Para avaliar grafestesia, traçamos na pele do paciente algumas letras, que devem ser reconhecidas por ele.

RECUPERAÇÃO

Primeiramente, devemos dar preferência a sessões breves ao invés de longas, e motivar o paciente, levando em consideração o que ele se mostrou capaz de fazer durante a avaliação. Devemos utilizar tanto o lado saudável quanto o lado afetado, e a recuperação é baseada em atividades que envolvam a sensibilidade.

Durante as atividades, deve ser oferecido ao paciente, que estará com a visão obstruída, um objeto para que este reconheça através do toque com a mão afetada. Se o objeto não for reconhecido, a visão é desobstruída para que a sensibilidade seja associada com a visão, comparando com a sensibilidade e a visão utilizando o lado saudável.

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Novamente, com a visão obstruída, dois objetos são oferecidos ao paciente, sendo um deles o que já foi utilizado anteriormente, tendo como meta o reconhecimento deste por parte do paciente.

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Após obter sucesso com esta atividade, podem ser oferecidas diferentes texturas para serem descritas através do toque. Letras de madeira ou EVA podem ser oferecidas para que o paciente sinta e descubra a palavra que está escrita.

Devemos, também, utilizar toques direcionados, ou seja, estímulos que deslizam pelo membro superior, questionando ao paciente onde o estímulo está começando e onde está terminando, que direção está seguindo, que forma está fazendo etc. Pode-se começar com toques mais profundos e, posteriormente, ir suavizando. Sempre que o paciente errar, a visão deve ser desobstruída e o estímulo repetido, para que a visão seja integrada com a sensibilidade.

Oferecer ao paciente objetos maiores, que devem ser segurados com ambas as mãos, como agendas, bolas, caixas etc., pode ser válido também, questionando ao paciente o que ele está segurando, qual a distância entre as mãos, se o objeto é grande ou pequeno.

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Outras atividades interessantes são a exploração de potes com grãos diferentes contendo objetos para serem encontrados, utilização da caixa tátil com diversos pares de objetos para serem encontrados, cada um com uma mão, entre outras.

Para identificar a melhora do nosso paciente, devemos sempre reavaliá-lo, mas é possível medir os resultados durante o tratamento, observando aumento do número de respostas corretas, diminuição do tempo para completar as atividades e melhora da funcionalidade, que é o nosso foco, como terapeutas ocupacionais!

Obrigada pela visita, e até a próxima!